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Em 1º de maio de 2018, na região central da cidade de São Paulo, um antigo prédio da Polícia Federal, que se encontrava ocupado por sem tetos, desabou após um intenso incêndio e levantou uma discussão pública sobre desigualdade social e ocupação do espaço urbano. Outro fato na época relevante à tragédia acabou causando estranhamento e desconfiança: semanas antes do ocorrido, uma empresa imobiliária lançou um anúncio de um condomínio de luxo com apartamentos residenciais no mesmo quarteirão em que ficava a ocupação. O folheto da propaganda apresentava uma imagem retirada do aplicativo Google maps, no entanto esta foi modificada, e “eliminava digitalmente” o prédio que desabara.

Coincidências ou não à parte, poderia esta ação ser considerada uma “gentrificação imagética”? Até que ponto uma imagem do espaço, manipulada digitalmente, é capaz de interferir na percepção subjetiva dos indivíduos que ali se encontram? Quais interesses estão em jogo em tal feito?

 

Tais perguntas levaram à conceitualização do projeto de intervenção artística [terra de quem?], que surgiu de três vontades: a primeira foi produzir cartografias ficcionais da cidade de Santos e de seus entornos através da manipulação digital de imagens de geoprocessamento, revelando aspectos históricos, políticos, sociais, culturais e ambientais naquilo que diz respeito à  dinamicidade da formação desse território; a segunda, foi a de tornar estas cartografias inteligíveis e diluídas no corpo social, permitindo, ao menos em hipótese, que o espectador se depare com a ideia de que o espaço geográfico é resultado das relações entre humanos e não humanos; e a terceira e última foi evidenciar o caráter estético e político da produção cartográfica. Nenhum mapa é neutro. 

Valendo-se da acepção do geógrafo brasileiro Milton Santos, segundo a qual o espaço é um “sistema indissociável de objetos e de ações (humanas)”, e sendo o mapa uma representação visual bidimensional desse mesmo espaço, através da combinação de cartografia e um simulacro de mapa (anti)turístico, Orla de Guaiaó, Ilha dos Morros e Cidade Autônoma Z.N. apresentam uma  “falsificação” do espaço real, criando imageticamente um outro espaço, reterritorializado,  atravessado por possíveis narrativas que transitam do utópico ao distópico. No entanto, mesmo que o espectador seja orientado pelo mapa, é ele que encaminhará subjetivamente o sentido daquilo que lhe é apresentado, estabelecendo a conexão entre o  espaço real onde ele se encontra e o ficcional ali representado. 

 

Se a utopia nos coloca diante de um mundo (ideal) que ainda não existe, mas que é virtualmente existente, a distopia também é projetada de modo similar, e talvez, justamente por ser virtualmente existente, não é desejada como a utopia, mas nos alerta sobre um tempo que está porvir.

Afinal, a terra é de quem?

terra de quem?